quarta-feira, 16 de março de 2011

Agonia e glória


“E vieram todos por fim,
Ao todo uns cem,
E não pode domá-lo
Enfim, ninguém.
Que ninguém doma o coração de um poeta.”
(Augusto dos Anjos)
 
Quero falar do que já não importa; redes, amuradas, homens trabalhando duro e o vento zunindo cantigas de guerra em nossos ouvidos. Horas há em meio a luta, que o sangue corre tão rápido e incandescente, que o rum mais puro ou a cachaça mais barata não conseguem se lhe comparar.

Delírios...
(Hulk não tem amigos!) Textos ainda não escritos atravessam as lembranças do que vou viver. Pernas esguias, lâminas afiadas entre as costelas, profundos mergulhos na goela escura do mar. Corsários e bucaneiros em confiança de lobos na neve; ao primeiro sol se devorarão entre gritos de dor e toques de fanfarra. (O herói não tem amigos, admiradores talvez, prontos a aplaudir outros heróis. Mas ninguém para dividir o pódio.)

         Ao primeiro contato com a corrupção (note bem) os cães já deixarão de te abanar a cauda. E pode esquecer a idéia do potro xucro, este jamais se te entregará. (Somente a solidão, essa pantera...(A.A.)) Teu suor não poderá mais regar a terra, e o sal das tuas lágrimas não mais servirá de pasto às borboletas, e perderás todo o direito ao cemitério dos elefantes.

(Hulk não tem amigos!) O ser humano mais próximo ao herói, aquele que lhe é mais chegado, o único a devotar um sentimento puro, é o vilão. Ah! Abençoada seja a faca do inimigo que tenta penetrar tuas costas na noite escura.

Mas, de que servem heróis sem uma luta, ou adversários à altura ? (Herói aposentado vira síndico só para discutir com o bombeiro?)
Bendito seja o punhal que te será fiel até seu intento final...

(Hulk não tem amigos!) Contam que os hunos iam guerrear cantando, e todo dia era um bom dia para morrer.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Esse objeto do desejo

“Quem sabe, o Super-Homem venha nos restituir a glória,
  Mudando como um Deus o curso da história,
  Por causa da mulher...” (Super-Homem, a Música – Gilberto Gil)

         E no princípio do mundo, quando tudo era perfeito, a Mulher tentou o Homem, fazendo-o comer do fruto da Árvore da Vida. E a partir daí, toda a desgraça da humanidade começou. Assim nos conta o livro de Gênesis, passando para a Mulher a culpa de todos os nossos males e mazelas.
         Já na mitologia grega encontramos quase que a mesma história, quando Pandora, não conseguindo conter sua feminina curiosidade, abre a caixa que libertaria todo o mal; a Peste, a Guerra, a Fome... (E aqui se faz necessário um parêntese, uma vez que os gregos contam que Pandora libertou também a Esperança, sendo um pouco mais legais com as mulheres que os hebreus.)
         Mas vejam só, tanto para judeus, quanto para gregos, a Mulher foi capaz com seu perverso poder, de retirar o mundo do paraíso perfeito, nos atirando ao caos. E toda a cultura ocidental (nossa) tem por base essas duas; a grega e a judaico-cristã... Parecem querer dizer que quando vemos uma mulher sofrendo das várias e variadas violências e violações, bem elas merecem...
         Ah, mulheres, mulheres, parece que quanto mais desejadas, mais odiadas; quanto mais amadas, tanto mais oprimidas; quanto maior o seu sucesso, maior também é o ódio e a inveja que as acompanha.
         Afinal, não foi isso que as estórias e histórias nos passaram a vida inteira; que o poder, por menor que seja, quando em mãos femininas é extremamente perigoso? Que a aproximação excessiva de homem e mulher tira a pureza dos homens, trazendo males indescritíveis para toda a humanidade?
         Colocando os exageros de lado, há certa verdade nesses mitos. Porque na prática é sempre através de uma mulher que nós homens abandonamos a inerte inocência, ultrapassando assim a linha divisória entre meninos e homens. A primeira experiência amorosa (amorosa, e não sexual!!), quando predador vira presa, e a caça se transforma em doce armadilha, é a fronteira sem a qual não poderemos, os homens, jamais definir ou distinguir o quanto vale a vida, com seus males, e todo o bem que só o amor de uma mulher pode nos dar.
         É daí que vem todo o medo (e a maldita violência que o acompanha), é que ao experimentarmos do fruto oferecido por uma mulher, - ou quando uma mulher nos abre a caixa – nenhum homem jamais será o mesmo, nenhum menino suportará continuar sendo criança. E daí as desgraças serão liberadas, uma vez que a perda da inocência, a saída do paraíso, traz em si a responsabilidade para assumir o mundo, com suas dores, seus prazeres, e suas conseqüências.
         É como se nos tivessem ensinado as histórias certas, mas com a interpretação errada. A perda da inocência, do viver em um eterno Jardim do Éden, não significa um castigo, mas o marco de nossa maturidade. Maturidade essa que começamos a atingir quando, pelas mãos de uma mulher, experimentamos do fruto da Árvore da Vida.

PS: Desculpem o atraso de alguns dias, mas na verdade esse texto vale pelo Dia Internacional da Mulher, na esperança de que algum dia entendamos como o “Super-Homem”, que a mulher deve ser amada e admirada todos os dias.

quarta-feira, 2 de março de 2011

TAI CHI CHUAN

Há que guardar segredos e saberes,
E jamais deixar que a luz de teus
Olhos fulgure além dos cílios.

Há que aquietar pulsações e tremores,
E jamais permitir que vejam
O quanto vale o teu braço.

Há que calar salmos e palavras,
E jamais deixar que tua língua
Vá além da barragem dos dentes.

Há que soprar velas e cobrir lumes,
E jamais permitir que teu brilho
Ultrapasse os limites do cinzento.

Há que ser radicalmente maleável,
E jamais deixar tuas arestas
Penetrarem o útero da lua.

E que teus pés não vão tão depressa,
Ou que teu peito liberte rumos,
Nem que tua boca cuspa trovões...

...muito tranqüilo.
Calmo, preciso e silencioso
Como o bote da serpente. 
        

                                                                 Rio de Janeiro,1990